segunda-feira, novembro 10, 2014

Os novos "donos da rua"


Os "esquerdinhas" estão tontos com o novo cenário político que se forma no Brasil. Não conseguem entender ou se situar. Eles, que não são mais o que foram, tentam manter intacto um passado que não volta mais. Uma tentativa frustrada, na verdade, de continuarem se apresentando como os "revolucionários socialistas", os "rebeldes" ou os "inconformados com o sistema vigente". A eles pertencia o direito de ir às ruas e protestar. Era quase uma exclusividade.
Mas o país mudou, tomou um novo rumo, uma nova cara. Após 12 anos (e mais 4 à frente, após o resultado acirrado nas últimas eleições) com seus representantes no poder e sem mostrarem muito a que vieram - ou melhor, mostrando que vieram para uma finalidade oposta à esperada - , os militantes, que sempre souberam o seu lugar - "à esquerda" -, parecem agora estar passando por uma crise de identidade, meio perdidos na "geografia política". Ainda assim, com esta situação configurada e tão visível a quem está atento às transformações nos setor, velhos e novos socialistas insistem em manter o status "na marra".
Fazem de tudo para deixar as coisas como sempre foram e cada qual em seu lugar: "Direita, volver! Esquerda, volver!" Algo muito paradoxal para quem se diz "revolucionário". Lançam mão de veículos midiáticos, capricham nos artigos e encomendam matérias. A ideia é manterem vivos os conceitos que, por décadas, definiram quem é quem. O que eles não contavam, no entanto, é que no meio do caminho surgisse um novo grupo: os de centro, sem partido e que são capazes de agregar características de ambos os lados. Trata-se de uma geração muito insatisfeita com o "status quo" político e social. Essa galera percebeu que não se adequa às velhas propostas socialistas da esquerda e nem gostaria de retornar ao modelo de direita que se mostrou pouco eficaz, principalmente na área social.

"Fazem de tudo para deixar as coisas como sempre foram e cada qual em seu lugar: "Direita, volver! Esquerda, volver!" Algo muito paradoxal para quem se diz 'revolucionário'"

Mas o que realmente funcionou como "menthos" na geração "coca-cola", foi um problema latente, que já existia em governos passados, mas parece ter ganhado uma versão atualizada e turbinada no governo atual: a corrupção. Esta, que tem levado bilhões dos cofres públicos e obrigado o brasileiro a tirar cada vez mais dinheiro do bolso em forma de taxas e impostos para repor os desvios. Em contrapartida, quanto mais se paga, mais se vê serviços públicos declinarem na qualidade e na eficiência. Nunca se viu a saúde tão caótica, a segurança tão precária e tão pouco investimento em educação. Apesar da grande propaganda que se faz em torno da atenção que se dá aos pobre, os últimos registros do IBGE apresentam crescimento na miséria nos últimos anos. Vivemos um momento de crise hídrica e, consequentemente, energética que, pode ter base no desmatamento desenfreado da Amazônia e na falha no reflorestamento da região sudeste.
Tantas insatisfações, que vinham se manifestando nas redes sociais há algum tempo, acabaram ganhando forma, saindo da rede e tomando as ruas, em junho de 2013, graças às manifestações do Movimento Passe Livre, que brigava contra o aumento de R$ 0,20 no transporte púbico. O fato é que este protesto foi apenas o estopim para um mega movimento que foi além dos R$ 0,20 e chegou lá na porta da presidente Dilma e do Congresso, metendo o pé com força total. A "esquerda", neste momento, ficou em choque. Era como se tivessem invadido seu território e roubado suas ideias. Por um pouco não pediram "indenização por direitos autorais". Quem eram aqueles, afinal, que ousavam se meter num campo que era exclusividade deles? Era gente de todo tipo, de todas as partes, reclamando de tudo, mas inflamados, principalmente por internautas. Isso mesmo, como bem diz a letra da música de Thiago Corrêa, essa turma "saiu do facebook pra mostrar como se faz/ E é tanta coisa que não cabe no cartaz..." (clipe que ilustra este texto)
A indignação da esquerda foi tanta, que convocaram seus militantes para dar um aviso aos "intrometidos". Chegaram como se fossem os "donos da rua", com bandeiras vermelhas em punho, com seus símbolos, siglas e frases feitas. Pareciam querer liderar o que consideravam sem liderança, organizar e direcionar o que achavam estar à mercê de ninguém. Na verdade, a mensagem embutida era: "Vamos te ensinar como se faz!". Mas tamanha arrogância foi surpreendida, primeiro por eles mesmos, já que a quantidade pífia de "vermelhinhos reaças" ante à multidão de cidadãos insatisfeitos nem chegou a fazer ruído. Depois, pelo "gigante acéfalo", que praticamente os expulsou das manifestações, chutando-os de volta aos seus mandantes, com o seguinte recado impresso, aos gritos, em suas testas: "É SEM PARTIDO!" Bandeiras do PT chegaram a ser queimadas, numa demonstração clara de que não eram bem-vindos. De que eles, na verdade, eram uma parte maior do problema, um dos grandes motivos daquele levante popular.

"Era como se tivessem invadido seu território e roubado suas ideias. Por um pouco não pediram 'indenização por direitos autorais'. Quem eram aqueles, afinal, que ousavam se meter num campo que era exclusividade deles?"

E agora? Como colocar esta gente em seu devido lugar? Desconstruir, descaracterizar, ridicularizar... Só para início de conversa. Como a propagando é a alma do negócio, e como não é a toa que o governo paga milhões a grandes empresas de publicidade e outros tantos milhões em propagandas governamentais em grandes veículos de notícia para cuidar "das coisas", tratou de pressionar essa galera tão bem remunerada. Surgiram, então, os termos pejorativos "coxinha" e "elite mortadela". Ressuscitaram, também, velhos termos: "reaças" (contração de reacionários), "burgueses e playboys" e "direita neoliberal". Para surpresa dos revoltados esquerdinhas, para cada neologismo ofensivo, surgia um similar no contra-ataque: "esquerda caviar" e "petralha", além dos antigos  "comunas" (abreviação de "comunistas") e "vermelhinhos".
É claro que, nesta briga, quem saiu ganhando foi a direita, que na confortável posição de "oposicionistas" (inertes, até então), pegou carona na onda da "turma de junho". Por conta desta adesão, a picuinha se tornou ainda mais acirrada, culminando nas eleições de 2014, que dividiu o Brasil em 2: Petistas e Anti-Petistas. Do lado dos anti-petistas, permanecia aquela turma mista, formada há 1 ano atrás. Mais da metade da população (68%) se mostrou contra o governo atual: ou votando no partido da oposição, ou deixando na urna o voto em branco ou nulo ou, simplesmente, se abstendo. Mas até os que se decidiram por manter tudo como está, se dividiram: militantes convictos, que votaram por ideologia, de um lado; partidários que lucram de alguma forma com a manutenção do governo atual de outro; e os que temiam - devido aos boatos plantados pelo PT -, o fim de programas sociais que alcançam milhões de brasileiros das classes C, D e E, espremidos no meio.
O PT ganhou (com 51,3% dos votos) mais 4 anos no poder, totalizando 16 anos no comando do país. Mas a população e a política não saíram desta "guerra" da forma que entraram. Conceitos começaram a ser revistos e até o velho termo "reaça" tão usado contra os "de direita", nunca se encaixou tão bem nos de "esquerda" (reacionário = indivíduos que defendem uma manutenção do "status quo" político e societal quando propostas de mudança ou tentativas de revoluções são iniciadas).
Mais uma vez a "geração facebook" foi ás ruas após as eleições, para o ato #ForaDilma ou #ImpeachmentJá - desta vez inflamados pela direita -, onde protestaram contra as várias denúncias de fraude que não receberam a devida atenção da justiça e da mídia; contra os casos de corrupção (Correios e Petrobrás) que envolvem o partido da presidente e a própria, e que periga terminar em "pizza"; e contra projetos "bolivarianos" que tramitam no Congresso e que recebem pressões internas e externas da esquerda para passarem. Um pequeno grupo, que não ultrapassava 30 pessoas, numa multidão de cerca de 5 mil, chegarou a pedir "intervenção militar". E, apesar da pouca expressão e de não representar o todo, a mesma mídia que ajudou na reeleição de Dilma, tratou de tornar esta reivindicação o ponto forte do movimento. É claro que, sendo o pedido o mais antipopular de todos, por remeter à Ditadura Militar,é o melhor candidato a ilustrar o grupo anti-petista. Será que conseguirão imprimir esta marca nos atos #ForaDilma, assim como viram a palavra "corrupção" se tornar o carimbo do Partido dos Trabalhadores?

"Conceitos começaram a ser revistos e até o velho termo 'reaça' tão usado contra os 'de direita', nunca se encaixou tão bem nos de 'esquerda'"

A esquerda já se deu conta de que sua imagem e sua posição não são mais as mesmas. "Estar na oposição" e "estar no poder", são situações bem diferentes e que deram um novo rumo a essa história. As coisas mudaram e estamos vendo renascer uma nova oposição, que não partiu da direita, mas foi influenciada pela esquerda e atiçada por uma ex-esquerda descontente, que despertou neoliberais e socialistas, que mesclou interesses, que desconstruiu conceitos e fez surgir outros novos. Toda esta revolução está fazendo a sociedade pensar, refletir, se informar. A manipulação continua sendo a principal arma contra as massas, ainda eficaz e letal. Mas é na rede que estão os "gatilhos de reflexão". Mais do que nunca precisamos da inclusão digital da classe pobre, a mais vulnerável nesta guerra ideológica. Foi por causa da internet que vimos milhões de "técnicos de futebol" se transformarem em milhões de "analistas políticos". E isto foi um grande passo.
A população continua de olho. Críticos de novela da Globo, estão percebendo que há outras novelas que precisam ser acompanhadas e, cujos finais, dependerão muito de cada um deles.